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A boa Anna era muito rígida no tocante à castidade e disciplina caninas. Os três cães residentes, que sempre vieram com Anna, eram Peter, a velha Baby e o fofinho Rags, que costumava saltitar apenas para mostrar que era feliz; eles e os demais cães temporários, numerosos vira-latas que Anna pegava para cuidar até que lhes arranjasse outro lar, viviam sob ordens estritas de nunca serem maus uns com os outros.

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Certo dia, aconteceu uma tragédia na família. Uma pequena cadela terrier temporária para quem Anna já encontrara outro lar deu à luz, de repente, uma ninhada de filhotes. Os novos donos sabiam que o animal não conhecera nenhum cão desde o instante em que foi entregue aos seus cuidados. A boa Anna garantiu que seus Peter e Rags eram inocentes, e o fez com tanta convicção que os donos da terrier foram enfim convencidos de que o imprevisto era culpa deles.

“Cachorro mau”, disse Anna a Peter naquela noite, “seu cachorro malvado”.

E explicou à srta. Mathilda: “Peter é o pai dos filhotes, e ainda por cima eles são iguaizinhos a ele. Coitada da terrier, os filhotes eram tão grandes que ela quase não conseguiu pari-los, mas, srta. Mathilda, eu não queria que essas pessoas soubessem que Peter era tão malvado”.

* Trecho do delicado ‘Três vidas’, de Gertrude Stein, publicado originalmente em 1909 (portanto, há um século) e agora relançado no Brasil pela Cosac Naify; foto do brilhante Elliott Erwitt *

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2 respostas to “As muitas vidas de Gertrude Stein”

 
  1. Joana disse:

    Recentemente eu li “Duas vidas”, uma pequena biografia com observações literárias sobre Gertrude Stein e sua companheira Alice B. Toklas. Confesso que não tenho paciência para Gertrude…

 

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Monica Ramalho

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