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Amigo é o escambau!

Publicado por Monica Ramalho in A plástica das artes

Enquanto toneladas de fogos comemorarem a chegada de 2012, alguém há de lembrar do suicídio do cartunista Péricles de Andrade Maranhão, ocorrido 50 anos antes. Para quem ainda não ligou o criador à criatura, uma dica: foi ele quem desenhou o personagem mais popular do Brasil nas décadas de 1940 e 1950. Outra ajudinha: era um garçom com os traços semelhantes aos do compositor Lamartine Babo e olhos grandes, de peixe morto, que caprichava na quantidade de gumex no cabelo e não pensava duas vezes na hora de mandar uma piada arrasadora, capaz de desmanchar qualquer laço de afeição. Agora ficou fácil? Sim, acertou! Estamos falando do legendário Amigo da Onça.


Politicamente incorreto, sarcástico beirando a maldade, com aquele ar superior de quem está sempre armando o bote, o Amigo da Onça era, ainda assim ou por isso mesmo, irresistível. Foi criado em 1943, quando o pernambucano iniciava a vida no Rio de Janeiro, para onde se mudou no ano anterior, aos 17, a fim de arriscar um emprego na cidade. Bateu direto na redação de O Cruzeiro, cheia de conterrâneos. “Péricles tinha a mesma idade de um jovem contínuo e gráfico, que trabalhava na fotografia: Millôr Fernandes era seu nome, e já escrevia textos na publicação, além de traduzir quadrinhos e pequenos contos”, situa o também cartunista Chico Caruso, autor da peça ‘O amigo da Onça’, que estreou em 1987 no Teatro Dulcina, Centro do Rio.

Caruso diz que Péricles e Millôr compartilharam uma página dupla na revista, com cartuns do primeiro e, naturalmente, escritos do segundo. No entanto, “como o desenhista não era muito pontual nas entregas, Millôr começou a fazer suas ilustrações, o que acabou dando no Pif-Paf e todo o sucesso que veio depois”. Só que cada um tem o seu lugar na história e a arte de Péricles influenciou o trabalho de muitos artistas. Cássio Loredano, um dos mais conceituados caricaturistas do país, por exemplo, conheceu e se encantou com a obra de Péricles quando ainda usava calças curtas e, na verdade, não compreendia sozinho os recados que o cartunista mandava.

“Aprendi humor com ele, através da Dona Leda, minha mãe. Papai era militar e vivíamos sendo transferidos para os mais remotos lugares do planeta. Toda semana, meu pai chegava em casa com O Cruzeiro debaixo do braço. Lembro bem que ele abria direto na página do Amigo da Onça e gargalhava furiosamente. Eu procurava achar graça naquilo, mas não entendia nada porque era piada para adultos. Então, com a maior boa vontade do mundo, assim que o papai largava a revista, minha mãe sentava ao meu lado e me explicava tudo direitinho”, recorda Loredano. Mas de onde veio a inspiração para criar um personagem com a alma tão galhofeira?

É Chico Caruso quem conta: “Ao Péricles, encomendaram um personagem que se espelhasse no famoso ‘El enemigo del hombre’, de uma revista argentina, que, por sua vez, fora influenciado por uma publicação americana, Esquire talvez, e que se chamava ‘The enemy of man’. Em sua pesquisa, num bar, Péricles viu um garçom muito chato, que tudo queria saber e tal e coisa, e teve o estalo: é ele! A partir daí, fez o Amigo da Onça, só comparável em popularidade, anos depois, aos personagens de Henfil e, mais recentemente, aos de Angelli, Laerte e Glauco”.

No auge do personagem, em meados dos anos 50, realizaram uma pesquisa entre os leitores de O Cruzeiro para descobrir quais eram as editorias mais lidas. Você não vai ficar surpreso ao saber que deu Amigo da Onça na cabeça – e com margem de folga! Na ocasião, provavelmente a charge já havia sido promovida à área, digamos, mais nobre da publicação: a parte de dentro. O objetivo era fazer com que as pessoas comprassem a revista, que, em princípio, estampava os cartuns de Péricles na capa e na contra-capa, facilitando a leitura no próprio jornaleiro. Além de arrancar risadas dos leitores, o Amigo da Onça foi usado para fazer crítica social, descendo o sarrafo em instituições sagradas, como o casamento, e deixando os chefes estressados em maus lençóis, mas, principalmente, retratando o homem como lobo do homem.

“Existe uma caricatura antológica: um português suarento, subindo uma ladeira com um relógio de parede enorme nas costas. Então, o Amigo da Onça passa por ele, lépido, arrumadinho, e, enquanto dá corda no relógio de pulso, quer saber que horas são para acertar os ponteirinhos dele”, descreve Cássio Loredano, resumindo o espírito do garçom de tiradas inteligentes. Charges como essa foram a sensação da revista entre 23 de outubro de 1943 e 3 de fevereiro de 1962. O personagem sobreviveu ao seu criador por apenas um mês e três dias, através das tintas do desenhista Carlos Estevão. Como Péricles morreu? Em 31 de dezembro de 1961, o artista vedou o seu apartamento e abriu o gás. E não foi amigo da onça de ninguém. Pelo contrário. Deixou um bilhete do lado de fora da porta avisando: “Não risquem fósforos”.

Publicada originalmente na revista Carioquice, editada pelo Instituto Cravo Albin

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Uma resposta to “Amigo é o escambau!”

 
  1. […] curioso quanto o comportamento dos indivíduos que ela denota. A expressão teve origem no nome do personagem de uma tira que foi publicada na extinta revista O Cruzeiro de 1943 a 1972 (a partir de 1962, não […]

 

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Monica Ramalho

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