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Como jogador de voleibol, Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho, conquistou oito títulos entre 1981 e 1985. Desde que se tornou técnico, há duas décadas, os prêmios se multiplicaram: até agora são quase quarenta medalhas e troféus, colecionados pelas seleções feminina e masculina. “Costumo dizer que a única coisa que os feitos passados garantem para o futuro são expectativas mais elevadas”. Conhecido pelo rigor no treinamento e pelo nervosismo que deixa transparecer quando sua equipe está em ação, o líder também é referência no quesito humano: quem trabalhou com ele expressa a maior gratidão pelo cuidado que dedica a cada um dentro e fora das quadras.

A paixão pelo esporte e toda a experiência que vem acumulando desde 1979, quando começou a jogar profissionalmente, estão impressas em dois livros, entre eles o best-seller ‘Transformando suor em ouro’, de 2006, e em obras de autores norte-americanos, nas quais colaborou nas edições brasileiras: ‘Nunca deixe de tentar’, publicado em 2009, do jorgador de basquete Michael Jordan, e ‘Treinador’, de Michael Lewis (todos foram lançados pela Editora Sextante). Tanta leitura e escrita sobre o esporte costumam render palestras interessantes sobre motivação que Bernardinho, prestes a completar 51 anos, ministra pelo país inteiro a públicos distintos. Nesta entrevista a seguir, o treinador fala sobre liderança, coletividade e paixão:

OAS EMPREENDIMENTOS – Na hora de motivar uma equipe vale o mesmo processo para atletas e vendedores?
BERNARDO ROCHA DE REZENDE – O processo de motivação é baseado nos mesmos pilares: a necessidade e a paixão. Motivar tem a ver com conscientizar as pessoas da importância da busca dos objetivos e o pulo do gato é você escolher pessoas que são apaixonadas pelo que fazem, sejam jogadores de um time ou funcionários de uma empresa. No entanto, por mais que seja considerado um líder motivador, dificilmente você vai conseguir um bom resultado quando escolhe as pessoas erradas.

OAS – Conversar com atletas vestindo moletom e falar de terno e gravata para empresários são atividades muito diferentes? Quais as temáticas você apresenta em suas palestras?
BERNARDINHO – Não são atividades diferentes porque lidamos com gente e o que muda são fatores externos. E não importa o que elas tem para oferecer porque quando se fala em esporte, por exemplo, o que o técnico faz é extrair performance de gente. Os processos básicos são os mesmos, como preparar, motivar, cobrar, reconhecer o esforço dessas pessoas, formar equipes e fazer com que entendam que individualmente ninguém vai conseguir nada, por melhor que seja. As minhas palestras são muito mais um testemunho. Claro que existe teoria envolvida, mas uso bastante a experiência, minha e do próximo, descoberta em livros e em conversas com outros líderes.

OAS – O que é a ‘Roda da Excelência’ que você menciona em suas palestras?
BERNARDINHO – A inspiração veio da ‘Pirâmide do Sucesso’, criada nos anos 1960 por John Wooden, um ex-treinador americano de basquete, morto recentemente. A pirâmide era constituída de blocos, que traziam os princípios da liderança, do altruísmo, do comprometimento e de outras bases humanas. Embora seja perene, era estática demais para o mundo atual. O que fiz foi aplicar esse conceito em uma roda e organizar os valores que considero essenciais nessa busca dos objetivos, que são a liderança, a formação de equipe e a perseverança, por exemplo. Essa roda e seus valores deslizam na esteira do planejamento. Ou seja, tenho que estar com tudo isso alinhado em um plano de ação para chegar ao meu destino. Essa roda já foi modificada diversas vezes e ainda está em desenvolvimento.

OAS – Como é possível incutir em uma equipe o sacrifício individual em favor do coletivo, em tempos onde a individualidade prevalece?
BERNARDINHO – Quando a pessoa começa a se achar indispensável é hora de começar a ser testada com metas elevadas. Garanto que não vai resistir. Ao se ver em um certo desconforto, a pessoa vai entender que faz parte de um time, formado por personalidades e talentos complementares. Sem os outros, nada feito. Ninguém chega a lugar nenhum.

OAS – Você costuma mencionar o conceito de uma “zona de conforto”. Porque acredita que as facilidades e as conquistas limitam o potencial humano?
BERNARDINHO – O ser humano tem uma tendência natural à acomodação. Ele conquista e entra no automático, acreditando que tudo vai continuar acontecendo mesmo que fique em casa, quietinho. A minha atribuição é essa, não permitir que eles caiam nessa zona de conforto. Costumo dizer que a única coisa que os feitos passados nos garantem para o futuro são expectativas mais elevadas.

OAS – Quem já trabalhou com você diz que promover o bem estar dos atletas na quadra e na vida é uma das suas habilidades. Essa também deve ser uma característica da boa liderança?
BERNARDINHO – Qualquer pessoa que trabalha em equipe tem que tentar promover um ambiente agradável. A pressão é inerente à atividade, mas existe também o reconhecimento. Eu brigo muito com eles, mas brigo muito mais por eles. E eles sabem que cobro e dou suporte quando necessário, sempre procurando entender as necessidades e os limites de cada um. Quando era menino, não gostava muito das exigências do meu primeiro treinador, o Bené do Fluminense. Hoje sou grato e me inspiro nele.

OAS – “O líder deve ser um facilitador de bons desempenhos”, você escreveu. Que outras características deve ter o verdadeiro líder?
BERNARDINHO – Toda instituição tem valores e o verdadeiro líder deve ser o guardião dos princípios que fazem com que uma empresa, uma família, uma seleção tenham um caminho longevo de sucesso. E sucesso não implica em apenas vencer. Quem está na luta vai ganhar e vai perder. Eu posso não perder nunca mais, é só me aposentar e não treinar mais nenhum time, mas prefiro trabalhar diariamente pela vitória.

Entrevista publicada na revista OAS

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Monica Ramalho

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