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PRIMAVERA AUSENTE

A professora deixara a turma no primeiro trimestre de 1985.
‘Estafa’, suspeitavam nos corredores, usando essa palavra que hoje soa tão remota. ‘O marido saiu de casa’, especulavam as mães por entre as árvores de um parquinho que ampliávamos pelas lentes da infância, o mesmo parque com roda-gigante, escorrega, gangorra e balanço que perdeu o sentido naquela primavera ausente da tia Cristina. Traçamos um plano: ligar todas as noites choramingando até trazê-la de volta. Não funcionou. Nunca mais encontrei vestígio da professora, mesmo buscando nos catálogos telefônicos por nome e sobrenome. E ainda agora, adulta o bastante para recordar com detalhes, aspiro certas fragrâncias que me arremessam às tardes de aprendizado com a tia adorada. Maria Cristina Anciens de Oliveira sabia ensinar e sabia, melhor ainda, nos fazer rir de doer a barriga e a mandíbula. Um dia ainda esbarro com a tia numa gargalhada boa, boa, tão boa como as aulas dela.

(Conto de Monica Ramalho e foto de Armstrong Roberts)

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Monica Ramalho

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