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Duas fotógrafas cariocas, Kitty Paranaguá e Ana Carolina Fernandes, vão inaugurar as suas exposições dentro do FotoRio 2017 no mesmo dia e espaço: 17 de maio, às 18h, no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). Outras mostras também serão abertas nesta data, mas “Campos de altitude”, da Kitty, e “Os veios abertos da Baía de Guanabara”, da Ana Carolina, dialogam intimamente porque ambas revelam um lado sofrido do Rio de Janeiro. Os ensaios são completamente diferentes, mas se conectam por denunciar a cidade cartão postal em colapso com duas coleções de imagens belíssimas. A entrada é grátis!

Foto de Kitty Paranaguá

Foto de Kitty Paranaguá

O processo da Kitty, que subiu favelas por cerca de um ano e meio – sempre receosa com o formato do seu tripé, que poderia facilmente ser confundido com um fuzil – era clicar as paisagens, encontrar os personagens pelo caminho e, depois, entrar na casa dos moradores, onde projetava as paisagens no seu interior e retratava os seus novos amigos de uma forma poética, que mistura as realidades em camadas. Quinze deles foram escolhidos para ganhar as paredes do CCJF, em ampliações quadradas de um metro, com curadoria de Diógenes Moura.

“Fiz esse ensaio inspirada no fotógrafo italiano Abelardo Morell, entre o final de 2014 e o início de 2016. Ou seja, na hora certa. Com essa crise na segurança da cidade, ficaria apreensiva de subir osmorros hoje”, desafaba Kitty. Pavão Pavãozinho, Complexo do Alemão, Providência, Tavares Bastos, Chapéu Mangueira, Cantagalo, Vidigal, Rocinha e Mata Machado foram algumas das comunidades que ganharam novos contornos através do seu olhar, que incluiu cerca de 20 moradores, de crianças a idosos.

Os “Campos de altitude” que nomeiam a mostra remetem às regiões propícias ao que os botânicos definem como “relíquias de vegetação” por se tratarem de plantas raras e isoladas em um contexto distinto da flora dominante. Um belo título para destacar as histórias dessa gente obstinada que Kitty desbravou e registrou em áudio nas suas visitas. A ideia é disponibilizar trechos dessas conversas para que o público também conheça um pouco da vida dos retratados.

Foto de Ana Carolina Fernandes

Foto de Ana Carolina Fernandes

Já o nome da exposição de Ana Carolina Fernandes, “Os veios abertos da Baía de Guanabara” parafraseia o título da obra-prima “As veias abertas da América Latina”, de 1971, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). As imagens aéreas foram feitas em algumas horas de sobrevoo de helicóptero pela Baía, ao lado do biólogo Mário Moscatelli, um nome sempre lembrado quando a pauta é a poluição das águas cariocas.

Ana Carolina vai expor onze imagens em grande formato no FotoRio, uma delas ocupará uma parede inteira, 3,65cm por 2,75cm. As fotos são magnéticas. “Essa é uma exposição de fotos-denúncia. Apesar da beleza apocalíptica das imagens, o que está ali é o resultado da falta de saneamento básico de milhões de pessoas e quase 500 milhões de litros de esgoto in natura despejados na Baía de Guanabara todos os dias”, ataca.

Ela cita a historiadora Maria Clara Rabelo para confirmar a exploração desde sempre da Baía, originalmente povoada pelos Tamoios. “Foi a partir do período colonial brasileiro, no entanto, que a Baía de Guanabara começou a passar por grandes transformações”, ensina a historiadora. Usado como marina portuguesa, depois foi aterrado para se transformar no Porto do Rio. Paradoxalmente, “as mesmas riquezas naturais que facilitaram a ocupação da região, foram sendo destruídas nesse processo e, hoje, correm o risco de desaparecer. O esgoto é o maior poluidor dos rios e da Baía propriamente dita”, diz o texto.

Há muito tempo, Kitty Paranaguá e Ana Carolina Fernandes esbarram as suas objetivas por aí e planejam fazer um trabalho realmente juntas. A Galeria Oriente, vinculada ao Ateliê Oriente, do qual Kitty é sócia, está preparando a exposição “As Marianas”, com trabalhos das duas e da também fotógrafa Ana Kahn sobre outra cidade e outro desastre: Mariana, que virou lama após o rompimento de uma barreira da Samarco, em 2015. “As imagens que mobilizam a consciência estão sempre ligadas a determinada situação histórica”. Susan Sontag (1933-2004) ecoa.

O Centro Cultural Justiça Federal – Av. Rio Branco, 241, no Centro do Rio.

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Monica Ramalho

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